qual o ponto de viver?
exatamente.
caro leitor,
talvez o assunto de hoje ja tenha sido falado e repetido por mim diversas vezes, mas acho que nunca sentei e expliquei pra vocês em detalhes as mudanças que ocorreram na minha cabecinha para eu me tornar quem eu sou hoje.
eu tava doom scrolling no instagram agorinha mesmo e me deparei com uma moça falando assim:
“vocês já pararam pra pensar que, tipo, a vida é pra ser divertida?”
calma! não se trata se uma tilelê maluquinha e privilegiada que não tem muito com o que se preocupar. nem ninguém exigindo isso de quem tem muito com o que se preocupar.
foi só uma querida se recusando a aceitar que o ponto da vida dela é sofrer.
e aí eu fui nos comentários, e vi o seguinte:
“é assim que é quando você não tem depressão?”
eu fiquei com vontade de me teletransportar pra onde estava a pessoa que comentou pra dizer que ia ficar tudo bem. e que não era esse o ponto. mas eu não pude fazer isso, então eu vim aqui me teletransportar pra caixinha de email de vocês pra contar uma história.
desde que eu vim pra são paulo, eu nunca mais fui chamada de tímida. já me caracterizaram como extrovertida, assertiva, argumentativa, corajosa, aberta. “eu gosto da vic pq a vic fala as coisas aí eu fico tipo éeee, fala mesmo!!”
gente, falar as coisas. juro. eu nunca na minha vida pensei que estaria aqui. EXTROVERTIDA. CORAJOSA?????? o que porra é essa?
vocês lembram de mim na faculdade de direito? vocês lembram de mim na escola? eu enganei todo mundo tão direitinho, inclusive a mim mesma, fiz todo mundo pensar que eu era outra pessoa. e essa Outra era perfeita, claro. ela não incomodava ninguém, todo mundo amava. a única coisa que ela não era era ela mesma (meu deus que trava língua da porra)
enfim!! vocês já estão cansados de saber que eu evoluí alguma coisa aí que agora eu tenho menos medo de ser e estar, e muitos acompanharam meus momentos de crise absoluta antes dessa mudança de chavinha, e também os momentos de crise depois, porque acostumar com a mudança também leva trabalho. todo o processo leva anos - leva, no presente, porque nunca acaba de fato -, mas a mudança se resume a poucos momentos, os quais deixo listados pra vocês:
o ponto
um dia eu vi um post no tumblr, no twitter, ou alguma coisa assim, que falava que alguns povos indígenas (não lembro quais, nem sei da veracidade do fato, só peguei a mensagem mesmo) tinham uma visão muito diferente da nossa porque a gente tá sempre atrás do nosso “motivo de viver”, nosso destino, qual o sentido da vida. mas pra eles, o motivo é apenas esse: viver. assim como todos os animais, nos temos um corpo que foi projetado pra estar no ambiente. e viver. andar, comer, cagar, ver as coisas e falar “ó que bonito ó”, se relacionar com os outros à nossa volta, mas só isso.
isso me fez parar e pensar. muito.
porque eu sempre fui meio cética na minha vida. eu não acredito no deus cristão, e antes me considerava atéia - hoje eu nem sei mais o que me considero, mas aí é conversa pra outro substack -, então pra mim o sentido da vida sempre foi meio que nenhum. a gente tá aqui, aleatoriamente, e o mundo é uma merda, mas é muito legal tbm às vezes e é isso. não pensava muito sobre. e eu sempre vi ao meu redor gente que via o sentido da vida em deus, que criou a gente pra servir a ele e sei la o que, gente que achava que o sentido era fazer o bem, ou ser o melhor que se pode ser. é sempre uma pressão sobre o que fazer da nossa vida, o que nos leva ao segundo momento:
os objetivos
na época em que eu estudava pra OAB, eu estava bem mal, e isso me fez ver uma boa quantidade de vídeos no youtube sobre, em resumo, botar sua vida de volta nos trilhos. é a minha versão de ler livros de autoajuda. em um desses vídeos, uma menina me falava que ao invés de criar um vision board pra me ajudar a alcançar meus objetivos, eu podia fazer cartinhas (bem pequenas tipo aquelas pra estudar sabe?), com minhas metas pra ler uma por uma todo dia, e que fazer isso a ajudou muito a mentalizar e a realmente agir da forma como ela queria.
logo na primeira cartinha, você colocava o seu maior objetivo na vida.
depois, você pensava em ações que você podia fazer facilmente, no seu dia a dia, que te ajudariam a chegar nesse objetivo.
e aí tinha varias outras coisas. tinha uma carta que você colocava as qualidades que você via em você mesma, uma que tinha as qualidades da pessoa que você queria ser, e aí tinha hábitos que você já criou, hábitos que você quer criar, metas mais objetivas, metas mais subjetivas, enfim.
eu sei que isso me fez pensar, finalmente, de forma direta, em qual era o meu maior objetivo na vida, pra onde eu quero caminhar, quem eu quero ser.
e eu sempre achei que eu quisesse ser artista. e sempre achei que eu quisesse fazer o bem pro mundo à minha volta.
mas aí eu voltei no momento anterior, e entendi mesmo. tudo que eu queria era ser uma pessoa, e viver uma vida.
é tudo que se pode querer. não tem mais. claro, há mil e uma nuances, questões - sociais, até -, que fazem tudo ser muito complexo. mas, naquele momento, eu tinha que ser simples, resolutiva, e resumir tudo tudo que sempre esteve em minha cabeça.
e era só isso.
eu preenchi o restante das cartinhas com aquele enorme peso tirado de minhas costas. eu não precisava de tudo aquilo mais. eu não precisava fazer algo pra me melhorar todo dia, não precisava de cursos de arte, não precisava que minha família me aceitasse, não precisava ser a melhor estudante do curso, não precisava mudar o pensamento das pessoas mal caráter e burras, não precisava ser gostada por todos, não precisava salvar o mundo, tudo que eu precisava estava ali, e era eu.
o que eu precisava fazer? existir.
mas e o que eu queria fazer? me divertir!
era realmente isso.
a aplicação
um tempo depois eu assisti o filme Soul, da Pixar, que é um filme bastante esquecido, por sinal. caso você não tenha visto, já aviso que vou deixar um spoiler.
o filme é sobre um cara que sonha em ser pianista porque tocar é o que faz ele entrar “na zona” e se desprender do mundo, é sua paixão, seu destino, seu sentido de vida. mas ele ainda não teve a oportunidade de mostrar seu talento pro mundo e é forçado a ser professor de música para alunos da escola. bom, eis que é apresentada a oportunidade perfeita a ele, e no caminho até a apresentação, ele… morre.
ele não aceita que morreu e foge do pós vida, chegando ao lugar onde nossas pequenas alminhas de neném são criadas. lá ele finge ser um dos caras que ensina as alminhas sobre o “spark”, o que ele entende por “sentido da vida”. ele é apresentado a uma alminha que já fez o curso sobre o spark um milhão de vezes, mas nunca conseguiu achar o seu - e ela só pode ir pro mundo humano ser parida quando encontrá-lo.
e claro que o espertalhão lá jura que o spark da sua vida é tocar piano - tal qual a espertalhona aqui, que achava que seu spark era fazer arte.
no final a gente entende que o verdadeiro spark é simplesmente viver apreciando as pequenas coisas. não é sobre piano. não é sobre fazer arte. na verdade, não é sobre fazer nada. é sobre ver as folhas do outono caindo, é sobre o sabor da sua pizza favorita, é sobre ficar feliz porque um completo estranho foi gentil com você. é o quentinho no coração. é lembrar do quanto o mundo é vasto e bonito. é estar rodeado de pessoas que te amam e demonstrar amor de volta. é levar bronca da sua mãe pq vc chegou molhado em casa pq esqueceu o guarda chuva, ou ver que sua cachorra mijou no canto certo, ou ser acordado por passarinhos de manhã e falar puta que pariu que passarinho filha da puta e dar uma risadinha pq vc ta reclamando com um passarinho. é quando seu crush olha de volta pra você e você sente borboletas no estômago, é quando seu namorado tá bonito hoje e você sente borboletas do mesmo jeitinho, e também é quando você passa por um término e você sente seu coração pesar - lembrando que você está vivo. é passar meses sem falar com sua amiga, encontrá-la novamente e vocês terem a mesma intimidade, e também quando você só quer ficar sozinho aproveitando a própria companhia. são os minutos deitado depois que o despertador, em que você pensa “como é que eu vou permanecer acordada hoje” ou então “hmmmm nenequinha gostosa” ou então “fodase vou faltar hoje” e volta a dormir. é quando você tá num ambiente cheio de pessoas cantando um mesmo coro, gritando por uma mesma pessoa, ou por um mesmo ideal. eu sei que eu escrevo esse tipo de coisa muitas vezes, e sei que vocês entendem o ponto, mas as vezes eu vou lembrando de todo tipo de situação e chega me dá um arrupio, por que é isso sabe? realmente é isso.
pode parecer óbvio o filme, mas quando eu tava assistindo eu não achei que seria sobre isso. e aí ele mostrou todas as pequenas coisas que tinham acontecido, tudo que fez aquela pequena alminha que ainda não tinha nascido ficar com tanta, tanta vontade de ir pro mundo e experienciá-lo. tudo que era queria era comer uma pizza e ver uma folha de outono cair. só isso bastava.
depois disso eu decidi que isso bastava pra mim também. não sei se decidi, ou se já era isso, e eu apenas percebi. mas de toda forma eu fiz uma decisão: qualquer crença que eu tinha do contrário seria questionada. me senti como a protagonista do meu próprio filme logo após o clímax. é um novo mundo, não há como voltar atrás.
eu sei que isso é extremamente dramático e eu não vejo isso de forma negativa, a gente tem é que romantizar as coisas (que são passíveis de romantização, claro) mesmo e fodase!
agora minhas ações podem finalmente ser alinhadas a um objetivo. e o objetivo é tão fácil que na verdade qualquer ação que eu fizer vai estar alinhada.
eu me proponho a me curar dos meus traumas e a tentar ser uma boa amiga, a fazer coisas que eu gosto. a aprender exatamente o que significa viver no momento e estar presente, praticar isso, buscar ajuda, aprender a me regular. amar as pessoas e amar o mundo. mas nos dias que eu não consigo fazer isso, ou então que eu não quero, tá tudo bem também. não há nada mais humano que sentir, sofrer, teimar, se desesperar, assim como rir e se divertir. ser uma pessoa e viver uma vida se encaixa em tudo que eu fizer.
sabe o que isso significa?
que eu, victoria louise, apenas em existir tal qual neste emoji 🧍 estou fazendo o suficiente.
eu sou suficiente!!!!!!
não há nada faltando em mim! eu sou uma pessoa inteirinha!
é o que eu tento falar pra todo mundo, eu só queria fazer todo mundo entender, e eu só entendi depois de toda essa matemática que levou meses pra se materializar e está levando anos pra se consumar de fato. mas você está aqui, você é uma pessoa! você é humano!! nada mais!
se deus existir, ele botou a gente aqui pra viver! pra sermos o que a gente é!!!
e se não existir, se nada houver sentido algum… ainda assim, tudo que a gente pode fazer aqui nesse mundo miserável é viver e ser o que a gente é!
meu deus!
eu não sei se vocês vão concordar comigo, se vão me achar uma lelé da cuca, se vão me achar demasiadamente sonhadora e otimista, ou se tudo isso era muito óbvio pra você e só tomou o seu tempo, mas essa sou eu querendo te agradar e sendo people-pleaser. que humano da minha parte!!! não é mesmo!!!!!
de qualquer forma, obrigada por chegar até aqui. de verdade. agora você conhece um pouco mais sobre mim.
depois desses momentos, eu já passei por muitos maus bocados, tive muita depressão, muitas inseguranças, mas é esse o ponto que eu queria chegar desde o início desse texto. não, menina do instagram, não é preciso estar livre de depressão pra acordar todo dia e decidir se divertir. tem dias que você não vai mesmo não. e tem pouquíssimos dias que você vai muito, e nada de ruim vai acontecer. mas na maior parte dos dias a dor existe e a alegria existe também, junto, ao mesmo tempo. isso aqui não é nada de “ain temos que viver os dias ruins pra valorizar os dias bons”. minha amiga dodo já escreveu nesse app que a gente não pausa o luto pra começar a festa.
acontece tudo junto ao mesmo tempo - sim, tipo o nome daquele filme! - e sentir tudo é importante, seja pra gente mesmo processar as coisas e deixar os sentimentos irem, seja pra gente assimilar a realidade, seja pra gente lutar pelo que a gente acredita.
teimar em se divertir mesmo quando tudo é uma bagunça, mesmo quando os sistemas são projetados pra nos fazer acreditar que o sentido da vida é fazer alguma coisa que nos dê valor. (essa é a parte em que você percebe que o texto inteiro também é uma crítica ao capitalismo, se ainda não percebeu). teimar em se recusar a aceitar que sua mera existência não tem valor, que você precisa agregar valor a ela.
a nossa mera existência é a coisa mais valiosa do mundo! aceitar isso, treinar minha mente para aceitar isso, tem sido o melhor esforço que eu já fiz, acima de qualquer busca por qualquer outro objetivo que me disseram que eu devia ter.
dá trabalho tá? exige aprender, ler, repetir, parar, pensar, interromper meus pensamentos e me convencer do contrário das minhas crenças, reprogramar todas elas, agir em desacordo comigo mesma, morrendo de medo, mas em acordo com quem eu quero ser. e é claro que nem sempre eu consigo.
mas errar não me deixa mais longe daquele meu objetivo maior. muito pelo contrário.
xero, te amo!


Vic vc é tao gigante